"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas." (Bernardo Soares)
publicado por Departamento de Língua Portuguesa | Terça-feira, 22 Março , 2011, 10:23

6.ª Parte

 

Caminhamos lado a lado, à beira-mar. O Sol está quase a nascer, pelo que os contornos da realidade material são ainda um pouco indefinidos. A praia está vazia, só nós percorremos as suas areias. Tenho falado muito com ela. Prefere ser chamada Sofia; foi o nome que escolheu para si. É impressionante como é doce a sua índole. Estava sequiosa de palavras, desejosa de um toque. Sim, porque eu consigo senti-la: gelada como a brisa de Inverno e ela sente-me quente como o Sol de África. Contou-me as suas viagens, transmitiu-me os seus receios, murmurou-me os segredos da existência. Ouvi-a. Esquecemos o meu pai ou, pelo menos, tentámos. Sabemos que há uma decisão a tomar mas adiamo-la convenientemente com uma mudança de assunto numa qualquer conversa. Tornei-me quase imortal nos últimos dias. A sua presença afasta de mim as exigências da vida biológica. Não como, não durmo. Contei-lhe tudo acerca de quem fui depois de a ver. Confessei todos os pensamentos deturpados, os silêncios cortantes que partilhava com o meu pai. Disse-lhe que chegara a pensar que era bom o que acontecera com ele. Que assim éramos capazes de estar juntos sem o silêncio nos incomodar. Pelo contrário, seria como o pano de fundo ideal dos nossos encontros. Ela ouviu-me.

Quando a encaro, neste preciso momento, vejo os seus olhos cobertos por um fino pano de água que o vento gélido, como ela, faz aparecer nas suas safiras. Só mais um passo para este mundo e ela seria como eu. Ficaria comigo, ela própria uma vítima do Destino. E que vítimas tão felizes seríamos nós. Mas ela não pode dar esse passo. Eu não esperei que tal fosse possível. Apenas sonhei.

– Sentes o cheiro a mar? – pergunto, pois os seus olhos contemplam o oceano.

– Sim – responde – Quero memorizá-lo bem.

Sorrio. Coloco o meu braço em volta dela, que se encolhe para encaixar no espaço que criei. Os seus lábios movem-se mas o som não se propaga, pois hesitou. Apenas da primeira vez, porque da segunda consigo ouvi-la perfeitamente:

– Sei que não devia, mas não consigo deixar de te amar.

As suas palavras ecoam pelo meu ser. A felicidade é uma certeza. No entanto, receio saber o desfecho da nossa história. É um cliché, eu sei, mas o meu desejo era que o tempo parasse e não ficamos mais reféns submissos dele.

 

Inês Maia, 12.º A


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