"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas." (Bernardo Soares)
publicado por Departamento de Língua Portuguesa | Sexta-feira, 04 Fevereiro , 2011, 11:58

 

3.ª Parte


Uma semana passou desde o seu aniversário. Conduzo controladamente para a casa do meu pai. É sexta-feira à noite e o cansaço faz-me ver formas indefinidas pelo vidro do meu automóvel. O vento uiva e a inquietude dos pensamentos faz-se notar na minha pele arrepiada que antecipa a ausência de palavras no reencontro com o meu progenitor ou, pior do que isso, a habitual conversa de circunstância.

Já me encontro nos subúrbios e consigo avistar, bem no fundo da avenida ladeada por carvalhos, o telhado da casa. Quando me aproximo sou invadido pela organoléptica de uma situação que não compreendo. As luzes azuis intermitentes rasgam o breu negro da noite agoirenta, e o som estridente das sirenes ensurdece-me momentaneamente. E vejo-a. Num fugaz momento frio e desolado, suspenso na linha da minha história. Desvio o olhar por um segundo e a sua figura esfumara-se no ar. Saio do carro e corro para a ambulância sem reflectir, apenas obedecendo às ordens do meu “instinto humano”.

– O que se passou? – consigo ouvir-me perguntar; a minha voz rouca interrompe as sirenes.

– É familiar deste senhor? – questiona o paramédico a quem me dirigi.

– Sim, sou o filho.

– Acidente Vascular Cerebral. Ainda bem que o seu pai estava acompanhado, caso contrário poderia ter morrido.

Olho em volta e vejo o rosto conhecido da Dona Cíntia, a empregada da casa. Está lavada em lágrimas e sustenta todo o seu peso contra o muro das vedações.

Estou desorientado e tento compreender as implicações desta situação. Sinto o chão a desfazer-se por baixo dos meus pés, tal é a instabilidade do meu pensamento.

– Mas ele está bem? – quando acabo de formular a interrogação, ela afigura-se-me ridícula.

– Ele está inconsciente e ainda não temos maneira de saber até que ponto se estendem os seus danos cerebrais.

A resposta é tão insatisfatória. No entanto, aceno levemente, como o meu corpo me permite, e salto para dentro da ambulância.

 

Os médicos dizem que o meu pai está em coma. Observo-o do cadeirão e a sua figura parece-me mais branda do que alguma vez fora. Por momentos agradeço a Deus esta oportunidade de partilhar a mesma sala com ele sem o silêncio coactivo, apenas com uma ausência de palavras reconfortante. Arrependo-me no instante seguinte; não tenho o direito de pensar tal coisa. Detesto não saber como toda esta situação vai acabar, pois o enigma é o que mais odeio. Nunca discutimos verdadeiramente aquele dia; remetemos para os recônditos da alma o que sentíamos. Lamento não o ter feito, mas agora é tarde. Saio para o corredor e o mesmo está completamente deserto. O relógio diz-me que faltam treze minutos para as quatro da manhã. O caminho está envolto em penumbra e a intensidade luminosa é pouca. Dou passadas largas de um lado para o outro do corredor. As minhas pernas estavam completamente dormentes. Ouço um suave deslizar de um material leve, talvez seda. Viro-me e contemplo-a. Ela, outra vez. Entreolhamo-nos. As duas safiras profundas do seu rosto mostram surpresa. Estaca à minha frente e vira para a direita, quase na esperança de que eu não a veja.

– Ei, posso ajudá-la? – pergunto. O meu coração bate descompassadamente.

Pára e o seu corpo endurece como uma estátua de mármore negro. Hesita e volta-se para mim, incrédula.

– Penso que não – replica a sua voz como a lembrava: breve, leve, suave.

Não sei o que fazer, pensar ou sentir. Quem é aquela figura sinistra? Um caleidoscópio de emoções assola-me quase de imediato. Ódio, curiosidade, surpresa, confusão… Corro e agarro-lhe o braço violentamente. A sua expressão é de admiração e apenas nessa altura reparo na magreza extrema do seu corpo e no frio; como se todo o seu ser estivesse impregnado de cristais de gelo.

– Agradecia que me largasse o braço – pediu, ou melhor, ordenou de uma forma inflexível.

– Não o farei enquanto não me disser o que está aqui a fazer.

Os seus olhos encontram os meus e trazem à minha memória os eventos do dia que mais tentei esquecer. Uma dor lancinante atinge o meu cérebro e é de tal forma veemente que me faz cambalear contra uma das paredes do corredor. Ela fita-me com compaixão, e continua a caminhar.

– Não, espere, não!

O meu grito corta o silêncio da noite na catedral da moléstia.

 

Inês Maia, 12.º A


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