"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas." (Bernardo Soares)
publicado por Departamento de Língua Portuguesa | Quarta-feira, 23 Fevereiro , 2011, 12:00

5.ª Parte


– Não, não… - murmuro e a minha cabeça balança impetuosamente.

Se tudo decorre na fugacidade do presente é porque a incerteza do futuro final é certa. E quando o agora acaba, ela recebe-nos com o seu abraço definitivo.

– É a morte, não é? É isso? – um fio de voz vacilante escapa da minha garganta. O meu olhar está turvo e vejo-a como um reflexo num lago.

– Sim, sou.

Solto uma gargalhada confusa e respiro profundamente. O seu aroma inebriante atinge-me e quase desfaleço. A compreensão da situação em que estou deixa-me desconcertado. Não duvido mais dela, nem de mim, nem de ninguém. Sei que diz a verdade, foi por isso que visitou a minha mãe e agora… o meu pai. É por isso que está cá. Por tantos anos lancei os braços para a vida esperando que ela me dissesse a verdade que eu já sabia, mas negava. Sinto ódio e revolta contra ela; não tinha o direito de roubar a minha alma imaculada e transformá-la numa âncora de chumbo. Ao mostrar-me o que está para lá da realidade condenou-me a uma existência sem conteúdo.

– Vou levar o teu pai. Lamento – afirma com pesar, como se pudesse sentir.

– Agora que juntei todos os pontos, não era preciso comunicar-me essa informação evidente – respondi, desafiando o Fado, qual cavaleiro destemido.

O seu corpo relaxa, consigo ver os ombros a descaírem. Quão ridícula parece naquele corpo adolescente. Se fosse humana poderia ter 16, 17 anos. É suposto o seu aspecto frágil apaziguar as almas? Detecto a desilusão nos seus olhos, ou está a minha mente a tentar humanizá-la? É como se quisesse transformá-la numa alegoria, algo tangível, material.

– Quanta amargura nas tuas palavras… Deves lembrar-te que eu sou o peão no jogo de xadrez e não a jogadora.

Proferiu aquelas palavras como uma sentença, como se nada pudesse fazer para mudar o destino. Não acredito.

– Pretende acalmar-me? Pois digo-lhe que é demasiado tarde. Tudo acabou no dia em que a vi.

Ela ressente-se com as palavras que a ferem diante de mim. Aquela criatura tão poderosa, rainha do destino, estremeceu quando falei. A culpa toma conta de mim e esqueço-me de quem ela é. Só consigo pensar em pedir-lhe perdão pelo que disse. Ainda estamos sentados lado a lado.

– Já pensaste como é solitário o destino inevitável do próprio destino? Ser para sempre condenada a ver viver e nunca viver? É uma tempestade que nunca acaba em bonança. Todos os dias exerço o meu próprio fim, porque só assim o mundo continua. Sempre foi assim, sempre será. Eu sei que queres perguntar o “porquê” de tudo isto. Nem eu própria o sei.

Parece-me confusa, mas genuína. Com a mente inerte e o corpo a agir como um autómato, a minha mão desliza para a sua, que repousa no regaço. Fica agitada mas aceita, por fim, o meu gesto.

– Lembro-me bem desse dia. Estavas no corredor. Os teus caracóis eram a moldura da tua face. Sabia que me verias. As crianças têm a capacidade de atravessar o véu repressor da realidade. Imaginei o teu sofrimento, mas pensei que o tempo apagaria os vestígios. Não consigo, nem podia ter adivinhado o futuro. Levei a tua mãe, mas não me esqueci de ti, David. Quando soube que era altura do teu pai partir, pensei que te encontraria de novo, mas tu não me verias. Ansiei pela tua chegada naquela noite. Por algum motivo, sempre foste especial. Vi-te no carro e reparei que me olhavas também. Pensei que contemplavas o vazio mas não pude ter a certeza. Foi por isso que passei por ti, no corredor do hospital. Queria que me ignorasses, queria ser apenas um conjunto de partículas de ar pelas quais caminhas sem reparar. Mas isso não aconteceu. Viste-me. A partir desse momento sabia que tinha de falar contigo. 

Quero abraçá-la, sentir o seu desespero a banhar a alma que nunca foi minha desde que os meus olhares pousaram sobre ela. No entanto, detenho-me. Permanecemos na espera que só a revelação da verdade permite ultrapassar.

 

Inês Maia, 12.º A


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