"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas." (Bernardo Soares)
publicado por Departamento de Língua Portuguesa | Terça-feira, 29 Março , 2011, 11:04

7.ª Parte


Por vezes, é na desordem que encontramos a serenidade. Foi o que me aconteceu. Todo o meu “eu” está enquadrado no mudo, neste momento. A estranheza da minha situação é confortável para mim. Estamos no hospital, a dirigirmo-nos para o quarto do meu pai. Não temos conversado sobre ele, fingimos não nos lembrarmos. Todos os que por ela passam não a admitem na sua realidade: ela é só minha, e parte de todos, simultaneamente. Chegamos ao quarto do meu pai e entreolhamo-nos verdadeiramente pela primeira vez em alguns dias. O seu rosto pede desculpa, mas não sei por que motivo. Senta-se e a fatalidade das coisas da vida atingem-me de rompão. A sua visão fica vidrada e fixa num ponto arbitrário no horizonte. Aproveito a ausência de comunicação para fazer um pedido:

– Gostava de falar com ele de novo, de dizer-lhe o que sinto: que o amo e o adoro para sempre. Podes fazer isso por mim?

Enquanto pondera, enrola obsessivamente uma madeixa de cabelo. A sua tez de porcelana desaparece e o seu corpo é um cadáver lívido e sem graça. O seu encanto esfumara-se. Responde finalmente:

– Sabes que não posso fazer isso. Sabe-lo desde o início.

Não quero acreditar. A fúria toma conta de mim e lanço-me a ela, colocando as mãos no seu pescoço de cisne. Ela respira calmamente, a sua face imperturbada. As veias no meu pescoço tornam-se salientes e atiro-a contra o chão.

– Por que estás aqui se nada podes mudar?! – grito; a minha voz irada rompe com o pano da normalidade.

E, de súbito, os seus olhos virgens são maculados. As lágrimas da mágoa irrompem descontroladamente e molham o pavimento. De ter conseguido tornar cadivo o próprio destino, não me orgulho. Queria tanto tornar realidade algo que sabia não ser possível que destruí o alicerce sobre o qual quase a totalidade da minha vida assenta: ela. A única pessoa adulta com a qual alguma vez comunicou traiu-a. Eu traí-a. Será que, bem no fundo, a amei porque pensei que concretizaria os meus desejos ou emendaria a minha existência? Não, não é a verdade. O meu amor por ela é um axioma, não precisa de ser provado nem demonstrado. Simplesmente existe, é uma realidade autónoma. Ela observa-me com amargura. Quer falar, mas não consegue. Soluça. Tenta de novo.

– Um dia, mais cedo do que pensas, irás compreender o “porquê” do que se afigura absurdo.

Encaro-a enquanto se põe de pé novamente. Oscila e ondula sem se aperceber. Caminha para o lado direito do meu pai que é uma estátua angelical no universo tecnológico deste quarto do hospital. Toca a sua mão. Sustenho a respiração e quero impedi-la, mas não o faço. Fica parada e a sua figura começa a desvanecer, muito vagarosamente. Assisto enquanto o sopro de vida do meu progenitor atravessa a ponte dos mundos. O meu pranto inicia-se. Por ele, por ela, por tudo. Ela pede-me perdão com o sei sorriso nostálgico, de certeza que lembra os momentos que passámos juntos. Eu também os recordo. Recordo o meu pai, a minha mãe, ela, os erros e os sucessos de uma linha de tempo encurralada pelo trauma.

Momentos depois, foram-se. Ouço o “bip” característico da morte. As máquinas também sabem que o meu pai faleceu. Acorrem ao quarto dois médicos apressados. Uma enfermeira empurra-me para fora da divisão. Chama um médico e diz-lhe que estou em choque, pois aparentemente não respondo as suas perguntas. Não os ouvi sequer. Apenas quero estar sozinho.

*

Dez anos passaram desde a sua morte. A manhã é ainda escura como a madrugada. Mantenho-me de pé; um ramo de flores brancas é “abraçado” por mim. Vêm-me à memória imagens da última vez que aqui vim com o meu pai. Não me revolto, nem choro. Ele está com a minha mãe, para sempre juntos no eterno lugar dos seres. Recordo também o último dia no hospital e as palavras da Morte, que tanto me perturbaram  na altura. Mas como a água que acalma depois do toque da gota, também eu sou agora, pela primeira vez desde os meus seis anos, sereno. Toda a sequência de eventos passados era necessária para a minha catarse. Percebo isso. Tinha de libertar-me das recordações do meu pai, da minha mãe, dela. Só assim viveria a minha vida. Foi por isso que fui a única pessoa a vê-la, senti-la, amá-la – para que pudesse deixá-la partir e para que com ela partisse tudo o que me assombrava.

Os contornos das sepulturas são agora mais perceptíveis e sei que é a altura de deixar o presente que trouxe aos meus pais: as flores. Elas representam a minha eterna saudade mas também o meu agradecimento por, à sua maneira, me terem moldado na pessoa que sou.

Lanço um último olhar à sua fotografia na laje e sopro-lhes um beijo. Parece que nem todos os ciclos são viciosos. Aqui estou eu, de novo, e sinto que a minha vida não é uma frase inacabada, suspensa. Ela tornou-se algo melhor, maior, mais divino. Deixo as considerações e atravesso o portal de volta ao mundo dos vivos. O céu já está claro e isso assusta-me. Não posso atrasar-me, a minha nova família precisa de mim, e o mundo também.

 

Inês Maia, 12.º A


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