"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas." (Bernardo Soares)
publicado por Departamento de Língua Portuguesa | Terça-feira, 11 Março , 2014, 19:22

 

Junto à Ribeira de Silvalde, nas proximidades de uma ponte que foi romana e que já não o é por obras e vontade da gente de outros tempos, existia um campo e dele tirava sustento uma mulher, com a força do seu suor e trabalho. E assim ela estava, como era hábito dos dias, quando viu em sua direcção aproximar-se bicho nunca visto, que só de cabeças tinha muitas, e de cujas intenções a mulher fez tal juízo que logo deitou a correr no meio de grande gritaria. E porque estas coisas do susto se pegam como pestes e maleitas, com ela fugiram todos os que por ali mourejavam, sem causa ou nome de tamanho alvoroço.

 

Com a noite ficou maior a canseira e, apesar do acontecimento ter perturbado o sono de muitos mais que alguns, acabaram todos por adormecer sobre os seus receios. Assim estava o povoado quando, altas horas da noite, o despertou súbito alarido, feito de balidos e cacarejos e tudo quanto é fala e canto de animais de criação, com mostras de grande medo. Acorreram todos a currais e capoeiras, mas nada mais viram que os despojos da confusão, entre animais degolados e feridos de morte certa, além de muito sangue espalhado pelo chão.

Foi assim que decidiram os camponeses que um deles ficaria a vigiar durante a noite, enquanto esperavam pelo nascer do sol para ver o que melhor conviria fazer. E porque se lembravam ainda do que a mulher tinha visto e contado, mais decidiram que o que fosse escolhido para vigiar tocaria uma corneta para toda a gente chamar se algo de novo acontecesse.

 

Começava a aurora a render a noite, quando se ouviu a corneta e, como estava combinado, todos acorreram ao chamado. Então, o que de entre eles tinha sido escolhido para vigiar o sono de todos, lhe contou que vira uma bicha que só de cabeças tinha muitas, e que lhe tinha batido com um ancinho, mas que ela tinha logo fugido para a floresta vizinha, destruindo hortas e cultivos.

Ouvindo o que hora se contou, ajustaram os camponeses matar o monstro, pelo que se armaram de paus , varapaus, foucinhas, ancinhos e o mais que à mão encontraram; e pelos campos fizeram batidas e no povoado esperaram dias e noites até que lhes aparecesse a bicha, o que veio a acontecer numa tarde cinzenta e chuvosa. Uns fugiram logo, mas outros atacaram com redobrada força, golpeando-a em vários sítios e órgãos, só se detendo quando a julgaram muito morta. Então um dos homens dela se aproximou. mas a bicha o fez pagar com a vida o seu atrevimento, golpeando-o no pescoço. Desta feita sobre ela de novo caíram os camponeses e com outros tantos golpes a mataram de vez. Contaram-lhe as cabeças e acharam com número de sete. Em seguida enterraram-na junto a um pilar da velha ponte romana e ali construíram uma capela para celebrar o acontecido.

 

Uma cheia do rio terá levado a capela. Hoje, resta uma pequena placa em azulejo a contar a lenda aos que ali passam.

 

Trazida por Hugo Montenegro, 7.º E

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