"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas." (Bernardo Soares)
publicado por Departamento de Língua Portuguesa | Terça-feira, 29 Abril , 2014, 11:41

Parabéns às alunas Beatriz Castro Neto e Inês Gonçalves dos Reis, do 5.º B, pelo 3.º Prémio ex-aequo, categoria Texto Original 2.º Ciclo, alcançado no Concurso Literário "Uma Aventura". 

 

 Aldeia das Disciplinas

 

        Era uma vez uma aldeia muito diferente de todas as outras. Cheirava a trabalhos para casa, ouvia-se as professoras a resmungar e só se comia sopa de letras. Contudo, apesar dessa tristeza toda, também havia coisas boas. As salas de aula eram azuis tal como o céu, os quadros brancos como a cal e o recreio era de uma cor verde encantadora.

       Nisto tudo, tinha de haver alunos! Mas, como a aldeia era diferente, os habitantes também teriam de o ser. Lá chamavam-se smurfunos em vez de alunos.

        Como nas escolas normais, existiam muitos alunos. Contudo, alguns destacavam-se mais. A Preguiçosa, o Resmungão, a Dorminhoca, a Divertida, a Vaidosa, o Inteligente, o Brincalhão, a Cabeça no Ar, a Dançarina e a Atrevida. Todos detestavam a escola, porém, um dia foi a Gota de Água, pois a smurfora, mandou mil e uma páginas de trabalhos para casa. Muito indignados, não conseguiam pensar em nenhuma solução. Claro que, sem solução, teriam de desistir de fazer os trabalhos para casa. E, nesse preciso momento, o Inteligente teve uma brilhante ideia:

        - E se ligássemos à Atrevida? Ela teria uma boa solução!

        - Boa ideia, Inteligente! Não pode coincidir com a minha hora do spa. -  referiu a Vaidosa.

        - Lá estás tu com as tuas lamechices! -  comentou o Resmungão.

         Depois de tudo planeado, decidiram ligar à Atrevida.

        - Claro! Eu nunca iria recusar uma proposta dessas! A minha sugestão é encontramo-nos no recreio da escola e depois falamos.

        Na hora do chá das cinco, todos se reuniram no local combinado. Após muitas horas de reunião, agendaram uma manifestação para segunda-feira. E assim foi.

        Apesar de tudo, foi uma manifestação calma como a do 25 de abril.

        Pelo facto de terem participado muitos smurfunos na manifestação, a smurfora percebeu que estava a ser exagerada no número de páginas do trabalho de casa. Então, decidiu baixar de 1001 para 999.

        A Dançarina, para festejar o acontecimento, fez uma dança com as skungs (botas saltantes).

        Viveram felizes para sempre.


publicado por Departamento de Língua Portuguesa | Quarta-feira, 12 Março , 2014, 19:33

 

UMA AVENTURA NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

 

Era um dia quente de verão. O sol escaldante queimava os braços e pernas destapados dos muitos visitantes da cidade de Lisboa. Carlos, Marta e Gonçalo não eram exceção. O inseparável trio de amigos, originário do Porto, encontrava-se na capital para participar numa manifestação “júnior” contra as medidas de austeridade implementadas pelo governo. Os três petizes percebiam bastante de política, e defendiam a saída da Troika do país e a demissão do primeiro-ministro, Benjamim Guimarães.

À hora combinada, Gonçalo, Marta e Carlos encontraram-se com mais de uma dezena de outros manifestantes de palmo e meio, com cartazes, bandeiras e vozes bem afinadas. Entretanto, decorria na Assembleia da República o já famoso debate quinzenal, que os jovens esperavam interromper.

Tudo estava preparado. Cartazes, autocolantes, altifalantes… Tudo estava no seu lugar, ao cuidado de uma determinada criança. Então, os miúdos, ágeis e destemidos, romperam pelo enorme portão que dava acesso ao local da manifestação. Após portas, portinhas e portões, os meninos e meninas finalmente chegaram ao destino: uma sala ampla, com muitas pessoas com diferentes opiniões políticas.

Ao início, os governantes não deram pela presença das crianças. Estavam envoltos numa decisão importante: a votação de aprovação da coadoção parental por casais do mesmo sexo.

Foi então que, subitamente, um menino de 7 anos, presente no grupo de manifestantes, começou a choramingar. É que o rapaz era órfão e estava num orfanato. Conhecera há pouco tempo um casal homossexual um tanto simpático, que estava prestes a adotá-lo. E o rapaz, atento ao que se passava naquela emblemática sala, ouviu o que mais temia: a não aprovação da coadoção, o que significava que não iria ter uma família, uma família a sério. Em vez disso, continuaria no orfanato horrendo, com teias de aranha nos cantos das paredes e quartos a cair de velhos.

Ao ouvir a voz esganiçada, o primeiro-ministro, Benjamim Guimarães, que fora interrompido, não hesitou. Seja lá de onde foi, sacou de uma pistola 9 mm com silenciador e apontou para a criança inconsolável, com um sorriso trocista. Os restantes governantes, assustados, recuaram e tentaram fugir da sala, mas não conseguiram. As crianças, verdadeiramente aterrorizadas, gritavam, chamando pelas mães!

Gonçalo, Marta e Carlos desapareceram subitamente. Ninguém dera pela falta deles… Até que, num ato heroico, Gonçalo saltou por detrás do primeiro-ministro e atirou-o ao chão, recolhendo a arma. O rapaz de 11 anos não conseguia acreditar! O primeiro-ministro do seu país era uma fraude, e ele tinha-o impedido de juntar um homicídio ao seu currículo!

As crianças, mal se viram salvas, correram para fora do edifício, enquanto a polícia detinha Benjamim.

Na manhã seguinte, o nome de Gonçalo fazia correr tinta em jornais de todo o mundo. Nesse mesmo dia, Gonçalo iria ao Palácio de Belém, para ser condecorado pelo Presidente da República, Mário Andrade, e lhe ser entregue uma proposta para ser enterrado, quando morresse, no Panteão Nacional.

Bem, era um dia que Gonçalo não ia esquecer. Nem ele, nem Benjamim…

 

Gonçalo Moreira, 6.º B

(Texto enviado a concurso)


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